O Supremo Tribunal Federal decidiu mais uma vez sobre uma questão de grande relevância no domínio da responsabilidade civil e do direito dos seguros: a influência da conduta da vítima no valor da indemnização que a seguradora do veículo responsável deve pagar.

Na sua recente decisão nº 656/2026, de 28 de abril, o Supremo Tribunal confirmou a redução de 50% da indemnização devida à família de uma motociclista que faleceu num acidente de viação por não usar capacete.

A vítima, uma mulher de 60 anos que conduzia um motociclo, esteve envolvida num acidente quando um automóvel iniciou uma ultrapassagem sem respeitar a distância mínima de segurança. Esta manobra desestabilizou a condutora, provocando a sua queda. O impacto com o solo provocou um traumatismo cranioencefálico grave que resultou na sua morte. Determinou-se que o fator decisivo para este trágico desfecho foi o facto de a vítima não estar a usar capacete homologado no momento do acidente.

Perante esta situação, a família do falecido solicitou uma indemnização superior a € 409.000 à seguradora do veículo, Mapfre. No entanto, tanto o Tribunal de Primeira Instância como o Tribunal Provincial de Múrcia, e agora o Supremo Tribunal, consideraram a culpa concorrente em 50%, reduzindo substancialmente a indemnização solicitada devido à ausência deste equipamento de protecção essencial.

O cerne do debate jurídico centra-se na aplicação do artigo 1.2 da Lei de Responsabilidade Civil e Seguro no Trânsito de Veículos Motorizados (LRCSCVM). Esta disposição regula os casos em que a vítima contribui para a ocorrência ou agravamento da lesão por não cumprir as normas de segurança, mencionando expressamente a falta de uso de capacete ou cinto de segurança. O Supremo Tribunal reforça o critério da autoproteção.

A decisão esclarece que, embora o sistema espanhol de acidentes de viação se baseie na responsabilidade objectiva pelo risco criado, tal não impede a avaliação da conduta da vítima se esta tiver contribuído causalmente para a lesão resultante.

Um aspeto fundamental da decisão 656/2026 do Supremo Tribunal é a rejeição categórica das percentagens de redução automática. O Supremo Tribunal esclarece que o artigo 1.2.º da Lei Espanhola sobre Responsabilidade Civil e Seguros de Veículos Motorizados (LRCSCVM) estabelece apenas um limite máximo de redução de 75%, o que obriga os juízes a realizar uma avaliação caso a caso de cada acidente. Neste caso concreto, manteve-se a redução de 50%, tendo em conta que o veículo provocou apenas uma ligeira colisão – sem excesso de velocidade ou condução imprudente –, que o traçado da estrada era confuso e que o uso do capacete teria muito provavelmente evitado a morte.

Com isto, a decisão sublinha a extrema importância do nexo de causalidade: uma simples infração administrativa por não utilizar o equipamento é insuficiente; é necessário demonstrar que esta omissão influenciou diretamente a lesão resultante. Esta decisão reforça uma linha jurisprudencial cada vez mais rigorosa em relação ao cumprimento das regras de autoproteção e envia uma mensagem clara para futuros litígios de trânsito: o relatório de perícia médica será o fator determinante, uma vez que o debate já não se centrará apenas em quem causou o acidente, mas em determinar qual a conduta que teve um impacto real no desfecho fatal.

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